As distorções do debate empresarial contra o fim da escala 6×1
Nos últimos meses, a proposta de acabar com a escala de trabalho 6×1 – seis dias de trabalho para apenas um de descanso – ganhou força no debate nacional. A reivindicação nasce de uma realidade evidente: milhões de trabalhadores brasileiros vivem submetidos a jornadas extenuantes que comprometem sua saúde, sua vida familiar e sua qualidade de vida.
Em Santa Catarina não é diferente, apenas no comércio do estado, em torno de 90% dos trabalhadores do setor estão na escala 6×1. Assim, aproximadamente 368 mil trabalhadores do comércio catarinense clamam pela redução da jornada de trabalho e pelo aumento da vida além do trabalho.
Diante dessa mobilização crescente da classe trabalhadora, setores empresariais passaram a reagir com estudos que distorcem o debate sobre os efeitos dessa mudança da jornada de trabalho. Uma das recentes distorções veio de um relatório divulgado pela Fecomércio de Santa Catarina, segundo o qual o fim da escala 6×1 poderia eliminar até 27 mil empregos no estado.
A conclusão ganhou manchetes e foi apresentada como se fosse resultado de uma análise técnica rigorosa. Mas uma leitura atenta do próprio relatório mostra algo bem diferente: o estudo é repleto de premissas frágeis, escolhas metodológicas aleatórias e omissões que distorcem o debate público em favor das elites econômicas do nosso estado e país.
O aumento de custos foi artificialmente inflado
O ponto de partida do relatório da Fecomércio é afirmar que a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais elevaria o custo da hora trabalhada em setores como comércio e serviços. Isso é verdade do ponto de vista contábil: se o salário mensal permanece igual e a jornada diminui, o custo por hora aumenta.
O problema é que o estudo se limita a calcular apenas esse indicador, ignorando a composição real dos custos das empresas. No comércio brasileiro, por exemplo, despesas com trabalho representam menos de 20% dos custos operacionais totais.
Quando se considera o conjunto dos custos – incluindo aluguel, energia, transporte, insumos e mercadorias – o impacto real da redução da jornada seria muito menor. Um aumento médio de 9,4% no custo da hora trabalhada no comércio significaria algo próximo de 1% de aumento no custo total do setor.
Em outras palavras: o relatório destaca um número isolado e o apresenta como se fosse o impacto econômico completo.
A estimativa de demissões foi construída sobre um número aleatório
A parte mais alarmista do estudo é a previsão de destruição de empregos. Para chegar a esse resultado, o relatório supõe que cada aumento de 1% no custo do trabalho levaria a uma queda de 0,3% no emprego.
O problema é simples: não existe qualquer referência empírica apresentada para justificar esse coeficiente. Trata-se de um valor escolhido arbitrariamente e aplicado mecanicamente aos dados.
Essa suposição ignora completamente a literatura econômica e as experiências históricas sobre redução da jornada de trabalho. Mesmo estudos acadêmicos mais conservadores não encontram evidências consistentes de que jornadas menores provoquem desemprego.
Um exemplo brasileiro é a redução da jornada legal de 48 para 44 horas na Constituição de 1988. Pesquisas posteriores que analisaram os trabalhadores diretamente afetados pela mudança não encontraram aumento da probabilidade de desemprego. Ao contrário, houve aumento do salário-hora e menor migração para a informalidade.
Ou seja: o alarmismo atual repete previsões catastrofistas que a própria história já desmentiu.
O estudo distorce o funcionamento da economia
Outro equívoco do relatório é assumir que empresas reagiriam automaticamente ao aumento do custo da hora trabalhada demitindo funcionários.
Na realidade, existem diversos mecanismos de ajuste: reorganização de escalas, ganhos de produtividade, redução de margens de lucro ou repasse parcial de preços. Experiências internacionais de redução da jornada mostram que as empresas tendem primeiro a reorganizar a produção com a força de trabalho existente antes de qualquer substituição por capital ou demissões.
Além disso, o relatório ignora um ponto central: salário é custo para as empresas, mas é renda para as famílias.
Quando trabalhadores recebem melhores salários por hora e têm mais tempo de descanso, o consumo tende a aumentar. Esse aumento da demanda beneficia diretamente setores como comércio e serviços, que dependem do consumo das famílias.
Premissas diferentes levam a resultados diferentes
Se utilizarmos premissas mais consistentes com a realidade econômica, o resultado da simulação muda completamente.
Tomando os próprios dados utilizados no debate e supondo que a redução da jornada exija recomposição das escalas de trabalho, seria necessário contratar novos trabalhadores para cobrir os turnos antes ocupados pelas horas excedentes.
Nesse cenário, estima-se que o fim da escala 6×1 poderia gerar até 116 mil novos empregos no comércio e nos serviços em Santa Catarina.
Isso mostra algo fundamental: números não são neutros. Eles refletem escolhas teóricas e políticas.
O debate é, antes de tudo, político
O relatório da Fecomércio tenta apresentar como questão técnica aquilo que é, na verdade, um conflito de classes.
A história das relações de trabalho mostra que previsões catastróficas sempre acompanharam avanços de direitos dos trabalhadores. Foi assim quando ocorreu a abolição da escravidão, quando se proibiu o trabalho infantil, quando se conquistou o descanso semanal remunerado, quando a jornada foi reduzida para oito horas e quando a Constituição de 1988 reduziu a jornada semanal no Brasil.
Ao contrário das previsões dos empresários na época, nenhuma dessas mudanças destruiu a economia.
A discussão sobre o fim da escala 6×1 não é apenas sobre produtividade ou custos empresariais. É sobre qual modelo de sociedade queremos construir. Trata-se de decidir se é aceitável que milhões de trabalhadores tenham apenas um dia de descanso por semana para preservar um padrão de exploração que não condiz mais com os nossos tempos.
Estudos distorcidos podem produzir manchetes, ainda mais quando conta com uma mídia parcial que sempre toma o partido dos empresários. Mas isso não altera um fato simples: uma economia saudável não se constrói com jornadas exaustivas e precarização do trabalho, e sim com trabalhadores valorizados, produtivos e capazes de viver com dignidade.
Por isso, o fim da escala 6×1 não é uma ameaça ao desenvolvimento. É um passo necessário para civilizar as relações de trabalho no Brasil.
Confira aqui o estudo da Mulinari Assessoria e Formação Econômica e Política avaliando o relatório da Fecomércio.










