28/03/2011
Em matéria especial assinada pelo jornalista Renato Pompeu, a Revisa do Brasil traz um retrato da Líbia. O país é formado por 140 tribos quase tão importantes quanto o governo. Há 40 anos no poder, o regime de Kadafi oscila entre capitular e hostilizar os interesses dos países ricos, liderados pelos EUA. Para entender a crise na Líbia, é preciso levar em conta que sua população nunca constituiu uma nação e até hoje é dividida em 140 tribos, na maioria arabizadas e islamitas sunitas, mas ainda restam nas montanhas a oeste populações berberes que falam sua língua original e são islamitas da corrente ibadita. O país tem 1,7 milhão de quilômetros quadrados, perto de um quarto da superfície do Brasil, mas apenas 6,4 milhões de habitantes (cerca de 500 mil são imigrantes africanos), concentrados nas poucas cidades – como Trípoli, a capital, com mais de 1 milhão de pessoas –, espalhadas por um imenso deserto. Embora tenha milhares de anos de história, o território líbio só muito recentemente passou a ser uma unidade política. Desde a Antiguidade, suas três regiões – Tripolitânia, Cirenaica e Fezzan – levaram vidas separadas. As duas primeiras só foram unificadas no século 16, pelo Império Otomano, e a elas o Fezzan se reuniu só no século 19. Nunca tiveram independência, tendo feito parte ainda dos impérios cartaginês, romano e árabe. Em 1911 as três regiões foram ocupadas pela Itália, e nos anos 1930 o nome Líbia foi dado a essa colônia italiana. Durante a Segunda Guerra Mundial, a partir de 1943, a Líbia foi ocupada por tropas britânicas e francesas, que ali instalaram um governo militar. Em 1951 foi proclamada sua independência, sob uma monarquia. Os recursos econômicos eram muito precários, pois a maior extensão do território era desértica. A Líbia vivia praticamente de doações de países ocidentais, em troca de permitir a permanência de tropas estrangeiras (as últimas saíram em 1966). Só em 1958 é que foi descoberto o petróleo, mas em menos de uma década seus rendimentos se tornaram altos. A monarquia do rei Ídris foi derrubada em 1969, num movimento militar liderado pelo jovem coronel Muamar Kadafi, então com apenas 27 anos. Com os dólares do petróleo, o regime de Kadafi subsidiou uma espécie de populismo redistributivo, a que foi dado o nome de socialismo. Apesar de seu governo ter proclamado uma “democracia de base”, um tanto inspirada nos moldes soviéticos, ou, mais exatamente, nos vigentes em Cuba, o grosso da população se sente mais ligado à tribo de cada um do que ao governo. Não existiram, durante todo o regime do ditador, partidos políticos. São as tribos que proporcionam empregos e assistência social. Milenarmente, as 140 eram compostas de pastores...